
Estrela e o céu que ela escolheu.
Por: Vanessa Bernardi Bidinotto
Os humanos são uma raça muito curiosa, eles nos enxergam como animais fofos e engraçados, mas não acreditam que a gente sabe cada respiração diferente que eles têm. A minha mãe é exatamente assim. Desde o instante em que ela me viu na janela e olhou fundo nos meus olhos — que ainda pediam socorro depois de tanta coisa ruim na rua — a energia dela começou a mudar.
Claro que fui eu a responsável por essa mudança, sempre faço coisas boas, embora nem sempre admitam. É triste saber que algumas pessoas ainda acreditam na ideia de que os gatos são seres egoístas e que não nos importamos com nada e com ninguém além de nós mesmos.
Mas não tinha como eu ver aqueles olhos curiosos me encarando na janela e não socorrer. Era nítido que era ela quem mais precisava de ajuda, então até deixei que me desse um banho e me molhasse toda, não sem deixar alguns arranhões de presente, até para mostrar que eu não sou tão fácil assim. Acho que foi assim, sutilmente, que a fui conquistando.
Hoje, assim que chegou do trabalho, ela me encarou por um tempo e fechou suavemente os olhos, abrindo-os novamente em seguida. Ela é muito inteligente e não demorou muito para perceber que essa é a minha forma de demonstrar amor. Alguns humanos levam décadas para nos entender. Assim que a respondi – agindo da mesma forma, ela me disse:
– Sabe, Estrela… faz um ano que você chegou. Um ano do dia em que vi você na minha janela.
– Miau.
– Achei que você merecia um presente. Então comprei várias coisas para você.
Fico a encarando e esperando ela tirar tudo que tinha dentro da sacola. De longe, já percebi meu petisco favorito e, quando me mexi para pegar ela me encarou séria e disse:
– Espera, Estrela, preciso arrumar.
Tive que voltar pro meu lugar e continuar encarando, esperando ela fazer o que tinha em mente. Fiquei pensando sobre esse tal um ano. Afinal, quanto é um ano? Eu nunca entendi muito bem essa ideia de tempo que os humanos usam. A única coisa que eu sei é que geralmente quando ela me diz que já volta, acaba demorando um monte. Eu sei porque eu acordo e durmo várias vezes até ela aparecer de novo. Então sempre me pergunto como ela faz esse cálculo aí. Se quando ela diz que é rápido, leva um tempão, esse ano que ela falou deve ser uma vida toda…
Uns minutos depois, quando ela coloca na minha frente um prato onde tinha empilhado alguns petiscos, paro a minha filosofia e resolvo atacá-los. São meus favoritos, claro que comi em segundos.
Assim que acabei de comer a encarei, com aquela cara de quero mais. Tentei fazer algo fofo, para ela ficar com pena de mim, mas não rolou, ela só me respondeu:
– Já chega, Estrela. Você já comeu mais do que deveria. Abri uma exceção só porque é seu primeiro aniversário comigo. Vamos aos presentes agora. – fala, tirando uma coisa da sacola. – Comprei esse cobertor para você. Olha que lindo! Ele lembra o céu do dia em que escolhemos seu nome. Você lembra como foi?
Ela levanta e coloca o cobertor dobrado no canto do sofá, onde costumo dormir. Espero que esse cobertor seja tão fofo quanto o tecido do sofá. Vou experimentar mais tarde. Ela continua me encarando, pelo jeito tem mais algum presente que não sei o que é, então permaneço no mesmo lugar, imóvel.
– Tem mais, Estrela! Trouxe esse brinquedo aqui, acho que você vai gostar. – ela fala, toda faceira, levantando um rato de tecido no ar.
Não consigo entender porque os humanos acham que vamos gostar desses bichos falsos que eles compram por aí. A gente nasceu para pegar bichos de verdade e não esses que se destroem na primeira caça.
Como sei que ela faz isso por amor, não posso fazer desfeita e finjo que estou animada. Ela joga ele pela sala e saio correndo atrás. Brinco um pouco para ela ficar feliz, mas canso em seguida e resolvo testar meu novo espaço no sofá arrumado com o cobertor.
Não demoro muito para me aconchegar nele, realmente é muito fofo. Um ponto para ela. Resolvo dormir por ali mesmo enquanto ela se diverte vendo essa tela gigante.
É muito bom perceber o quanto ela mudou desde que eu cheguei, sabe? O sorriso dela evoluiu tanto nesse tempo que estou aqui.
Logo que cheguei, eu percebia o quanto ela se esforçava para sorrir. Parecia fazer um esforço gigantesco para entortar os lábios, como se sentisse dor ao fazer o movimento. Mas hoje ela já sorri de um jeito bem diferente. Mais leve e natural. Ela sorri com a alma. E isso muda tudo. E eu posso dormir em paz, sabendo que, nesse um ano, já fiz um bom trabalho.